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Sobranceiro
a vila de Torres Novas, ergue-se o velho castelo medieval que durante séculos foi defessa
da progressiva povoação. Guarnecida de nove torres, a muralha cerca um terreiro que
ocupa a parte cimeira do cabeça, adaptando-se-lhe com a sua configuração a aproximar-se
de rectangular, embora imperfeitamente, visto ser feita em curva a ligação das faces
setentrional e oriental.
Remontando
ao passado desse lugar pelo que concerne à fortificação, só tradições inseguras ou
vagas hipóteses podem ser apontadas relativamente aos tempos anteriores ao
estabelecimento dos Romanos; quanto a esta época algo a tal respeito pode imaginar-se com
alguma Segurança, porquanto, é bem de crer que o não deixariam eles sem fortificação,
já que por suas vizinhanças fizeram passar a estrada de Lisboa a Conimbriga, ligada à
vasta rede vial com que dotaram a Península. Se assim foi, como de facto pode aceitar-se,
essa fortificação deve ter sido afectada, primeiro, pelas lutas que acompanharam a
invasão dos Bárbaros e extinção do domínio romano; depois, pela guerra entre as duas
nações barbaras que persistiram, a dos Suevas e a dos Visigodos, em disputa da região;
mais tarde, pela posse muçulmana resultante da invasão que nos começos do século VIII
repeliu para as Astúrias o núcleo mais activo dos cristãos descendentes da gente
visigotica três séculos antes invasora da Península; finalmente, pelo fluxo e refluxo
das algaras cristãs e muçulmanas de que a região foi trissecularmente teatro.
A
conquista de Santarém por D. Afonso Henriques, logo acrescida da de Lisboa, teve como
imediata consequência a libertação do Ribatejo, tornando-se cristã a região de Torres
Novas, e portanto cristãs as suas fortificações, às quais o nosso primeiro Rei decerto
prestou sua atenção, melhorando as e dando-lhes então verdadeiramente aspecto de
castelo, facto que pode crer-se ter sido origem de dar-se à povoação o toponímia
Torres acrescido do qualificativo Novas para a distinguir de outra já anteriormente
denominada Torres, a qual então se passou a chamar velhas (Vedras). Certo é que em
documentos régios de 1159 ainda esta aparece denominada simplesmente Torres: e, por outro
lado, não conhecemos documentação mais antiga do que o codicilo testamenteiro de D.
Afonso Henriques, de 1179, onde aparece o nome Torres Novas.
Em 1190,
recebeu esta povoação o seu primeiro foral, e neste mesmo ano foi o seu castelo posto a
prova, sendo invadido após porfiada resistência de dez dias, pelas hostes muçulmanas
com que Iacube Ibne lúçufe, filho e sucessor de lúçufe falecido em
consequência dos ferimentos recebidos em 1184. por acasião do infrutífero assedio de
Santarém atravessara o Alentejo e penetrara na Estremadura. Deixando desmantelado
o castelo, as forças atacantes seguiram ao de Tomar, que, como relativamente a este já
dissemos, não conseguiram conquistar.
D. Sancho
I não deixou certamente sem reparo os estragos sofridos então pelo castelo; e D. Dinis,
que em tantos outros castelos introduziu melhoramentos e que ao termo concelhio de
Torres Novas consagrou cuidados de povoamento, fundando entre Tomar e Golegã, região
então deserta e feita covil de malfeitores, três
póvoas, Atalaia, Tajeira e Asseiceira igualmente não deixaria sem atenção o
castelo que representava Fulcro militar do beneficiado concelho. Mas foi D. Fernando quem
promoveu uma larga remodelação do castelo de Torres Novas, como o testemunham duas ainda
perdurantes lápides, que assinalam o começo das obras em 2 de Janeiro de 1374 e a sua
conclusão em 1376. E foi já esse castelo, assim quase totalmente reconstruído, que
serviu de teatro a várias vicissitudes da vida portuguesa nos agitados dois anos
subsequentes à morte desse monarca: sustentando o partido da herdeira do trono
português, D. Beatriz, e de seu marido, o rei castelhano João I, acolheu este em Outubro
de 1384, quando em regresso do inútil cerco de Lisboa; no ano seguinte, o Mestre de Avis,
D. João, já rei de Portugal, vindo do norte para tolher o passo ao seu homónimo
castelhano, por segunda vez invasor de Portugal, atacou Torres Novas e forçou a
guarnição castelhana da vila a concentrar-se no castelo, deixando-a sem mais ataques,
porque, outro e mais importante era o objectivo que por ali o fizera passar com suas
forças militares. Meses depois, eis que em Aljubarrota explode a vitória portuguesa. 
Liberta da
ocupação castelhana, Torres Novas declara-se por D. João I; o seu castelo torna a
ostentar o pendão de Portugal, sob governo dum novo alcaide português, Antão Vasques.
Em
contraste com o persistente progresso da vila, o castelo começou porém, nos subsequentes
séculos, a sofrer os males dum incipiente abandono. que o terramoto de 1755 tornou
definitivo, destruindo alguns lanços da muralha, arruinando-lhe quatro torres e
ocasionando mesmo uma devastação geral mais ou menos acentuada, que a acção do tempo e
dos homens foi posteriormente agravando.
Porém,
há poucos anos, os trabalhos de restauro empreendidos pela Direcção Geral dos
Edifícios e Monumentos Nacionais, sarando as feridas abertas no castelo pela Natureza,
pelo tempo e pelo homem, ressuscitaram-lhe o perfil fernandino, e nele a evocação de
repetidas e porfiadas lutas.
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