![]()
Magnifico, lindo, orgulhoso, esbelto, rude, agreste, são poucos os adjectivos qualificativos para classificar este magnífico castelo que é sem duvida um dos mais singulares e belos de Portugal.
Do alto das suas torres avistam-se terras sem fim, povoados a perder de vista, atalaias e mais castelos.
Rodeado por rios e florestas de verde luminoso, caraqueterisa-se pela sua verticalidade, as belas torres, o penedo onde está incavalitado, tudo o faz soberbo.
Cerca de
sessenta quilómetros a nordeste de Viseu, uns vinte ao sul do rio Douro, situa-se a vila
de Penedono, e dominando-a, no alto do morro por cuja encosta ela se estende, recorta-se
no horizonte o artístico perfil dum castelo que com a povoação partilha o nome.
Este
castelo embora também pudesse chamar-se simplesmente torre militar ou, e decerto mais
propriamente moradia acastelada, essa edificação de artísticas linhas arquitectónicas,
mas de assaz modestas dimensões: uns escassos 70 metros no perímetro exterior, com a
correspondente escassez do bem reduzido espaço interno. 
Moradia,
torre ou castelo pois de tudo isso participa a construção, sua planta é irregularmente
! hexagonal, a aproximar-se tanto de triangular que pode considerar-se formada por três
grossas paredes, não rectilíneas é cIaro: a principal, voltada ao sul, constituída por
dois lanços que formam ângulo acentuadamente obtuso, de vértice voltado ao exterior,
abrindo-se na extremidade ocidental dela, entre dois torreões sobrepujados de capitéis
com eirado e ameias, a porta de entrada, a qual dão acesso alguns poucos degraus; a do
poente, que corre ao norte até um amplo cubelo igualmente capitelado e ameado, daqui
partindo a terceira, que, reforçada a meio por um torreão de menores dimensões, se
orienta a sueste até entestar com a principal, ligando-se a ela por um dos grandes
torreões capitelados e ameados, que estrategicamente ocupam as esquinas da edificação.
Nas três fachadas, abrem-se, aqui e além, algumas bocarras, que terão sido janelas mas
sugerem aplicação ao uso de artilharia.
É de feição quinhentista o perfil
arquitectónico deste belo monumento militar, e por isso acertadamente se crê representar
reconstrução contemporânea do foral novo, concedido, à vila de Penedono por D. Manuel
I em 1512. Mas, assim reconstruído, ele herdava uma longa história de que muitas das
suas pedras tinham sido testemunhas, em alternativas de construção, destruição e
reconstrução longa história cujos, primórdios alcançam, como é crível,
remotos séculos, provavelmente os do domínio romano e do vaivém político que
sucessivas invasões imprimiram à região.
Todavia,
é somente a partir do século X que podem conhecer-se documentalmente, ou inferir-se com
aceitável plausibilidade, os fatos históricos da fortificação erguida no morro de
Penedono. Com efeito, no ano 998 da chamada «era, hispânica», correspondente ao ano 960
da nossa era corrente; e não no de 968 (correspondente a 930), como sustentou o
seiscentista Gaspar Estaço e se aceitou no Boletim n. 73 da Direcção Geral dos
Monumentos Nacionais certa dama, Chamoa
Rodrigues, sobrinha da Celebre Mumadona edificadora do Mosteiro e castelo de Guimarães,
achando-se em perigo de vida, fez-se conduzir a essa casa de religião, e, instituindo
testamenteira aquela sua tia, com o encargo de dispor dos seus bens para fins de
beneficência, incluiu na lista das propriedades outorgadas a fiada de castelos que bordam
por leste a Beira Alta, com suas terras gentes - penellas et populaturas no latim do documento - entre eles
o de Penedono. Ora, sabendo-se que o repovoamento da região beirã ao sul do Douro,
principiado pelo monarca leonês Afonso III na segunda metade do século IX, só veio a
realizar-se depois que, no ano 939, o filho e sucessor daquele rei, Ramiro II, venceu os
muçulmanos no encontro de Simancas, é lógico inferir que o repovoador dessa região
beirã e edificador, ou mais provavelmente reedificador, do castelo de Penedono fora o pai
da referida D, Chamoa Rodrigues, Rodrigo Tedoniz, cunhado de Mumadona, como consorte duma
irmã desta, de nome Leodegúndia.
Pouco
tempo depois daquela Imposição testamentária, já toda essa região
voltara, porém, ao poder dos muçulmanos, atravessando mais dum século de alternado
domínio até que as conquistas de Fernando Magno, concluídas em 1064, trouxeram
definitiva posse cristã dessas tão longamente litigiosas terras. É fácil de imaginar
quanto sofreria nessa sucessão de perdas e recuperações o castelo de Penedono; certo
é, porém, que, se provavelmente alguma vez desmantelado pelos muçulmanos, nunca deixou
de ser reconstruído pelos cristãos; a atesta-lo há a prova documental dum inventário
de bens do mosteiro de Guimarães, que, lavrado em 1095, o menciona, conjuntamente, com os
demais outrora legados por D. Chamoa.
Compreensível
é esse interesse, dada a sua, situação proximamente fronteiriça, interesse idêntico
ao que, século e meio mais tarde, animou também o segundo rei português, D. Sancho I,
com justiça apelidado de Povoador, quando no seu empenho de guarnecer militar e
populacionalmente as terras da Beira oriental, fundou ou restaurou povoações e
fortificações raianas, entre as quais não esqueceu a de Penedono, porquanto concedendo
em 1195 foral à povoação, o fez decerto em reconhecimento da importância do seu
castelo.
No século
XIII, andando D. Dinis em desavenças com Castela, das quais veio a resultar apossar-se
das terras beiras de além-Coa, de crer é que os castelos das vizinhanças, e o de
Penedono portanto, fossem postos em estado de alarme.
Decorrido
um século, ardendo a guerra entre Portugal e Castela, nos anos seguintes à morte de D.
Fernando, seguiam o partido de D. João, Mestre de Avis, Regente primeiro, e logo desde
1385 Rei de Portugal, os membros da notável família Coutinho. Era então, muito
provavelmente, alcaide do castelo de Penedono, por morte de Vasco Fernandes Coutinho,
falecido na primavera de 1384, seu filho Gonçalo Vasques Coutinho, também alcaide de
Trancoso, esse a quem os portugueses conferiram em 1385 o encargo de chefiar as forças
que conquistaram o castelo da Feira. Dele diz uma carta régia de mercê lavrada em 1415
ser natural de Penedono, donde igualmente o eram ascendentes seus.
Crê-se,
por isso, que ali lhe tivessem nascido os filhos, e entre eles o celebre Magriço, Álvaro
Gonçalves Coutinho, um dos Doze de Inglaterra, glorificados por Camões no conhecido
episódio dos Lusíadas em que descreve o combate vitoriosamente travado em Londres nos
fins do século XIV, por doze cavaleiros portugueses que ali foram defrontar outros tantos
cavaleiros ingleses, em desafronta de doze damas inglesas, maltratadas de palavras por
aqueles seus compatriotas. Tradição porventura lendária, mas tão harmónica com a
mentalidade cavalheiresca do crepúsculo da Idade Media, ela nos permite vislumbrar com
uma auréola de romantismo o castelo de Penedono, onde provavelmente nasceu aquele Álvaro
Gonçalves Coutinho, o Magriço, cujas típicas características de cavaleiro medieval,
aventuroso, esforçado, pundonoroso e assomadiço, Camões se empenhou em vivamente
acentuar.
Mas se o
nascimento do Magriço aí teve lugar, igualmente aí teria nascido seu irmão
primogénito, Vasco Fernandes Coutinho, 1º conde de Marialva, que foi combatente da
expedição de Tânger (1137), e no qual se originou uma série de descendentes directos e
colaterais que durante séculos, geração após geração, ilustraram a estirpe nos
campos de batalha marroquinos e noutros pontos do Ultramar português. Dela destacaremos
os mais antigos representantes direitos, por se lhes poder com verosimilhança atribuir
interesse pelo castelo de Penedono: os filhos do 1º Conde de Marialva, D. Gonçalo
Coutinho, que herdou o titulo, e D. Fernando Coutinho, ambos combatentes no segundo ataque
de Tânger (1164), onde o primeiro perdeu a vida; seus netos, D. João Coutinho, 3º Conde
de Marielva, e D. Francisco Coutinho. 4º Conde de Merialva por sucessão de seu irmão
falecido sem descendência, ambos integradas na expedição que conquistou Arzila (1471),
feito de armas que ao primeiro custou a vida.
Pelo
menos até esta geração, os Coutinhos, senhores regionais, com Fortes raízes
históricas na região norte-beirã, indubitavelmente devem ter-se interessado pelo
castelo de Penedono, ao qual os ligavam antigos elos de berço familiar, e porventura
vários outros. Disso dá mesmo testemunho o facto de atribuir-se a reconstrução
quinhentista do castelo e a concessão do foral manuelino, a influência daquele 4º Conde
de Marialva, cujos serviços como funcionário judicial e como militar, tais como os de
seus ascendentes, foram todavia de mais longa duração, atravessando nada menos de quatro
reinados, de D. Afonso V a D, João III o seu ascendente junto da família real é ainda
testemunhado pelo consórcio de sua filha única, D. Guiomar Coutinho, com o Infante D.
Fernando, filho de D, Manuel I.
O Conde
faleceu sem mais geração em 1532, e sua filha seguiu-o no túmulo dois anos depois,
também sem geração; a linha directa da estirpe Coutinho ficou assim extinta, e os representantes
dos seus ramos colaterais, progressivamente integrados no ambiente da Corte e na vida
ultramarina da Nação, é natural que também progressivamente esquecessem o velho solar
acastelado de Penedono.
Desde os
fins do século XVII, se acaso alguém fazia na Corte referência, decerto vaga, ao
castelo de Penedono, era já o nome dos Lacerdas, então seus alcaides-mores, aliás
puramente honoríficos, que simultaneamente se ouvia. E pouco a pouco, até que a
Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais há uns anos restaurou este
histórico monumento, o abandono e a diluidora acção do tempo, bastante o danificaram. O
abandono mais de certo que o esquecimento, porque ninguém poderia ou poderá esquecer
que, embora as enegrecidas pedras da sua reconstrução quinhentista não recordem feitos
militares locais, pois não estão registados na história, no entanto neles ecoa a
recordação familiar de alguns dos mais emocionantes momentos do heroísmo português
além do mar.
Envolvido nas lutas pela independência, Penedono foi de grande importância para a defesa do reino, foi cantado por Camões no seu Canto VI dos Lusíadas.
![]()