CASTELO
DE MONTEMOR
O VELHO
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Na margem
direita da Mondego, a umas folgadas três léguas da sua foz, emerge entre viçosos campos
de cultura num não muito alteroso monte, em cujo cimo se ergue o castelo que em antigas
eras foi amparo militar do crescimento populacional e económico da Florescente vila de
Montemor o Velho.
Toda a
vasta parte cimeira da referida elevação constitui amplo terreiro, circuitado por
muralha de planta muito irregular cingida às condições topográficas, e dentro do qual
no ângulo sueste, tem assento a torre de menagem. Numerosos cubelos retocam a muralha, na
qual se abrem duas portas de acesso ao terreiro, uma a sueste, proximo daquele torre, o
Arco da Peste, e outra a sudoeste, o Arco da Senhora do Rosário. A extensão e a
configuração do castelo, tais como chegaram até aos modernos tempos, não são,
evidentemente, as primitivas, mas sim as resultantes duma longa evolução construtiva,
cortada século após século de destruições, seguidas de reconstruções, bem como de
sucessivos melhoramentos, tudo isso ao sabor dos eventos políticos e militares de que ele
foi objecto, numa serie de vicissitudes que acompanhou a sua longa história.
Longa
história, com efeito, porquanto a mais remota noticia concreta da existência duma
construção casteleira no morro de Montemor o Velho remonta aos primeiros tempos da
Reconquista Cristã; mais precisamente aos últimos anos do reinado do monarca
astur-leonês Ramiro I, o qual, tendo arrancado ao poder dos muçulmanos a povoação, no
ano 848 da nossa era, doou, entre outros, os rendimentos dela a um sobrinho seu, o abade
João, monge do convento de Lorvão, cenóbio então em grande decadência, conferindo-lhe
simultâneamente o encargo de a defender, mantendo guarnição militar no castelo, Refere
uma secular tradição que no tempo desse religioso foi Montemor-o-Velho violentamente
atacado por forças muçulmanas do califa de Cordova, comandadas por um cristão renegado,
Garcia lanhez Zuleima, então, entre os muçulmanos e que os defensores, achando-se
em grande aperto, deram morte aos demais habitantes, mesmo a seus muito próximos
parentes, a fim de lhes pouparem cativeiro e possíveis afrontas dos já bem previsíveis
vencedores, e depois arremeteram contra o inimigo, decididos a morrer combatendo;
fizeram-no, porém, com tal ímpeto, que os levaram de vencido, ao contrário do aliás
logicamente esperado, dada a superioridade numérica da hoste muçulmana. Ao ser recordada
já no século XVIII, e oficializada por diploma de D. João V, a tradição
enriquecera-se, porém, com um desfecho claramente lendário, mas profundamente
sentimental, o de, miraculosamente ressuscitados, saírem ao encontro dos vencedores
aqueles seres a que tinham tirado a vida em cruel mas bem intencionada resolução.
Na segunda metade do século
X e primeira do imediato, toda a região entre o Douro e o Mondego conheceu alternativas
de domínio cristão e muçulmano. Quanto a Montemor-o-Velho, sabe-se que após a sua
conquista pelo celebre Almançor em 990, voltou à posse cristã em 1017, à muçulmana em
1026, e finalmente à cristã em 1064, embora com repovoamento seguro só desde a época
1055 a 1064 em que a acção reconquistadora empreendida par Fernando Magno
tornou definitivamente cristã toda a região até ao Mondego, tão demoradamente
litigiosa. Entregando ao Conde Sisnando o governo do distrito conimbricence e seus
castelos, aquele monarca implicitamente lhe confiava os cuidados de melhoramentos de
Montemor-o-Velho; falecendo, porém, a breve trecho, foi já Afonso VI, seu sucessor no
duplo reino de Leão e Castela, quem ordenou o restauro do castelo, antes de 1091, data da
morte do conde Sisnando. Um documento de 1095, de que isso consta, traça um breve mas
impressionante quadro da situação que determinou a ordem régia: arrasado outrora o
castelo pelos muçulmanos, um matagal cobrira as ruínas, tornando-as covil de feras, a
demandar o prescrito remédio. Na aurora do Portugal nascente, o conde Henrique, dando foral a povoação em data seguramente anterior a 1111, decerto não descurou a eficiência militar do castelo, como se viu meia dúzia de anos depois, por ocasião de nova invasão muçulmana assoladora da região. Quando, em 1128, o moço Afonso Henriques assumiu o governo da terra portucalense, não há noticias de que lhe fosse contrário o alcaide montemorense, então Paio Midis. De anos subsequentes são conhecidas algumas notícias alusivas ao castelo; em meados do
século XII é citado pelo geógrafo árabe Adrisi, e um documento de 1135 alude às
muralhas como ponto de referência; mas é preciso chegar ao século XIII para que, como
teatro de perturbações da vida nacional, a sua história se avivente, Venhamos, pois, a
1211; D. Sancho I morrera na primavera desse ano, deixando contemplados em testamento
todos os seus filhos e filhas; e entre os senhorios que legara figurava o de
Montemor-o-Velho, estipulado em favor da infanta D. Tersa. O novo rei, D. Afonso II, cioso
da autoridade régia, exigiu o retorno desses senhorio à Coroa; a questão azedou-se, e o
castelo de Montemor-o-Velho chegou a ser cercado
por hoste régia, com evidente perigo da infanta, que nele se refugiara. Mas o assedio foi
levantado; a questão, todavia arrastou-se e até 1216, sendo então resolvida por
intervenção do pontífice Inocêncio III.
Um século depois, em 1321. o castelo de Montemor-o-Velho figurou entre as conquistas do
futuro Afonso IV, então em rebeldia contra seu pai, o rei D. Dinis. Após dois séculos e
meio de natural decaimento militar e vida rotineira, o castelo deve ter recebido a visita
do patriótico Prior do Crato, D. António, que na vila esteve em 1580, quando tentava
defender na linha do Mondego os restos da sua infelizmente abalada realeza;
Depois um
pesado abandono ficou pesando sobre essa fortificação; no seu amplo terreiro
instalaram-se campos de cultura, e muitas das suas pedras foram levadas para outras
construções. Mas nem tudo se perdeu; por 1929, um ilustre montemorense, António
Rodrigues Campos empreendeu uma campanha de defesa e promoveu ali alguns restauros, dando
assim clara mostra de que a gloriosa história dessas enegrecidas ruínas não mergulhara
em definitivo esquecimento.
Foi ponto de muitas batalhas entre os povos que pela Península lutaram. Foi habitação de Alcaide e é um lugar de contos e lendas de encantar quem quer que as possa ouvir.
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