![]()
Talvez um dos mais emblemáticos e agrestes
castelo Portugueses, surpreende-nos pela sua austeridade e extraordinária beleza.
No
mais alto dos píncaros da serra de Marvão, duas dezenas de quilómetros a nornordeste de
Portalegre, tem assento a vila que à serrania deu o nome, e que, se porventura
corresponde à povoação lusitana denominada Medobriga, entrou na história quando, nos
meados do primeiro século da era cristã, decorrendo as lutas travadas na Península
entre César e Pompeu, tropas daquele, sob o comanda do propretor Caio Longino, a
conquistaram.
Situada a
poucas centenas de metros da ponte da Portagem, pela qual transpunha o Sever a rodovia
integrada no sistema vial com que mais tarde os Romanos dotaram a Península, e que, vinda
de Cáceres, se dirigia a Santarém, muito natural é que eles se interessassem por aquele
alto que comandava o curso do referido afluente do Tejo.
Do que ali
se passou em tempo dos sucessivos dominadores da região, Romanos, Suevos, Visigodos e
Árabes, nada se sabe com Segurança, e só dos tempos muçulmanos, uma tradição, com
seu ar de lendária, atribui a certo chefe denominado Marvam a conquista da povoação e a
origem do persistente topónimo.
De
qualquer modo, Marvão era ainda Muçulmana quando já as hostes do primeiro Rei
português se tinham assenhoreado de Alcácer do Sal, e mesmo penetrado no coração do
Alentejo. A conquista de Marvão pelos Portugueses é geralmente atribuída a 1166, ano
que nalguns escritos aparece transformado em 1116, por evidente lapso. Aquela data
corresponde realmente à conquista e temporária posse de Cáceres, Montanches e Serpa,
precedida no ano anterior pela de Trujilho e pela reconquista definitiva de Évora;
porém, quanto a Marvão, não se conhece qualquer documentação que integre a sua
conquista nessa serie de operações militares. Todavia em 1214 era já firmemente
portuguesa, pois se indica na demarcação no termo de Castelo Branco.
Acentuando-se
os seus progressos e o interesse português por essa praça fronteiriça, recebeu Marvão
foral em 1226.
Meio
século depois, nos primeiros tempos do reinado de D. Dinis, Marvão, cujo senhorio,
conjuntamente com os de Portalegre, Arronches e Castelo de Vide, Afonso III outorgara a um
dos seus filhos, Afonso Sanches, figura de algum modo na discórdia então travada entre
este infante e aquele Rei, seu irmão primogénito.
Nos fins
do século XIV, Marvão tomou parte entre as primeiras terras portuguesas que secundaram o
Mestre de Avis, D. João, no levantamento nacional subsequente à morte de D. Fernando; e,
séculos volvidos, um idêntico sentimento patriótico fez ecoar em Marvão o grito de
revolta de 1808, com a primeira invasão francesa.
Povoação
fortificada, Marvão conserva quase intactas as suas velhas edificações militares, que
no seu conjunto representam o somatório de reconstruções e ampliações, paralelas à
história da vila, e cujos inícios remontam, possivelmente, a um passado já romano e ao
de construções muçulmanas. Esse conjunto é constituído por uma muralha interior,
torreada, que cerca o terreiro do castelo, e adossada à qual se ergue a torre de menagem
cuja construção é atribuída a D. Dinis. Envolvendo esse núcleo há uma segunda
muralha, ameada e torreada, e por fim uma barbacã. Finalmente, partindo daquela,
alonga-se a muralha que circuita a vila, e na qual, em tempos da Restauração, foram
acrescentados alguns baluartes de configuração adequada à setecentista arte militar.
Por este
conjunto cuidadosamente tem velado a louvável Liga dos Amigos do castelo de Marvão, que
assim simultaneamente torna perdurante a memória do patriótico passado da sua terra.