CASTELO
DE NEIVA
![]()
A estrada
litorânea que do Porto se dirigi para o norte, transpõe, a meia distância entre
Esposende e Viana do Castelo, um pequeno rio, o Neiva, após o que, percorrido um par de quilómetros, vai passar nas
proximidades duma alta colina que, entre campos verdejantes, se lhe ergue à direita, e em
cujo cume, dominando vasta região, se erguia outrora um castelo, o de Neiva, do qual
adveio chamar-se a povoação dele vizinha Castelo de Neiva, quando anteriormente, em
tempos medievais, tivera ela como nome o do orago da freguesia. S. Tiago, acrescido duma
perífrase de feição topográfica, já referente ao castelo, S. Tiago de ao pé do
castelo, denominação que, no medievo latim das mais antigas Inquirições, as de 1220,
assim é dita Santo Jacobo de juxta castellum. 
Desse
castelo nada resta, mas é possível visioná-lo, e visioná-lo com respeito, porquanto,
erguido à beira da estrada que precedeu a actual, sem dúvida constituiu, na hora da
independência de Portugal, uma das sentinelas vigilantes duma das vias de invasão da
terra portuguesa. Foi todavia noutra hora também de crise nacional, a do advento da
dinastia de Avis, que se escreveu a mais conhecida página da sua história, então
semelhante a do castelo de Guimarães, visto figurar entre as terras cujos defensores, por
motivos de um mal entendido, legalismo, as mantinham por D. Beatriz e pelo seu consorte
castelhano. 
Ia
começar a campanha do Minho, subsequente à aclamação de D. João I nas Cortes de
Coimbra; e enquanto o Rei preparava a sua ida ao Porto, base das previstas operações
militares, àquela cidade se dirigiu o Condestável, que ele encarregara de organizar
reforços navais destinados à defesa de Lisboa, ameaçada por uma armada castelhana.
Dado
comprimento a essa missão, resolveu Nun´Álvares ir em romaria ao túmulo do Apóstolo
Santiago, na Galiza, intuito ao qual associou, todavia, o de assenhorear-se de algumas
terras onde não fosse ainda reconhecida a autoridade de D. João I. Fazendo então
caminho por Leça, em direcção a Darque e Viana, foi passar pelo castelo de Neiva, aí
chegando ao por do sol dum certo dia, hora a que logo se travou um rijo combate. Era o
castelo «mui forte e bem defendente», disse o cronista Fernão Lopes, sendo assim de
prever uma longa resistência. Tal não sucedeu, porém, pois quis o acaso que a pouco
tempo do começo da luta uma seta atingisse mortalmente no rosto o alcaide, entregando-se
depois a guarneço do castelo. 
Logo a
castelã viúva veio avistar-se com Nun´Álvares, lembrando-lhe o respeito da sua
dignidade e fidalguia, e ele, ao outro dia pela manhã a mandou honradamente, com
certos homens de cavalo e a pé, a Ponte do
Lima, a seu pai». Depois, deixando ali «Pero Afonso do Casal com certos homens de armas
e de pé», prosseguiu o Condestável viagem com o grosso da sua gente. ![]()
Depois
disto, o castelo de Neiva mergulha na penumbra da História; e pelos séculos fora, pouco
a pouco, mesmo a sua figura material, talvez altaneira, se esbata até desaparecer. Hoje,
e já desde há muito não existe dele uma só das suas pedras no lugar próprio; o
desrespeito dos homens as levou para outros lugares, destinados porventura à construção
ou restauros de edifícios religiosos, e também, decerto empregadas em outros fins bem
menos dignificantes. Só a marca dos alicerces, abertos na penedia, e que, lá no alto,
são ainda em parte visíveis, constitui derradeiro vestígio material da sua remota
existência.
![]()