CASTELO DE LANHOSO
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Construido sobre a maior monólito granítico da
Portugal se não mesmo da Península Ibérica, situa-se o belo castelo do Lanhoso. 
Magnifico castelo altaneiro Encravado nas alturas entre o rio Cávado e o rio Ave no meio de um panorama indiscritível.
Este esplendido castelo, rude, belo, imponente, quase assombroso desafia o espirito de quem o vê do cimo do seu gigantesco pedestal granítico.
Literalmente cavado e encravado na rocha granítica que lhe serve de alicerce este castelo tem uma enorme torre de barbacã, torreões imponentes, escadarias talhadas no chão de rocha pela mão do homem, toda uma armonia agreste e pura que encanta que a vê pela sua pureza quase sem macula.
Cerca duns
cinco quilómetros a leste de Braga, sobre um rude cabeço dominador de verdejantes
horizontes, perdura, um tanto minorado, o vetusto castelo de Lanhoso.
Perto dali
passava, em remotos tempos, uma das rodovias romanas que, partindo de Braga, iam atingir
Astorga por diversos percursos; não a estrada chamada «da Geirax como por vezes
tem sido afirmado, mesmo em publicação oficial que,
transposto o Cávado, se internava na Galiza pelas serranias do Gerês, portanto assaz
afastadamente de Lanhoso, mas sim aquela que pelo sul do referido rio se dirigia a Chaves,
a Aquae Flaviae dos tempos romanos. Decerto já esta circunstância e a de topografia
levaram os Romanos a erigirem nesse cabeço uma torre militar, que desde o começo do
século V, encerrado o período de paz romana, veio a ser certamente alvo de ataques, no
fluxo e refluxo das várias invasões de que foi teatro o noroeste peninsular.
Certo é
que a velha torre romana se achava reduzida à subestrutura quando sobre esta se ergueu a
torre de menagem do castelo medieval, construído provavelmente nos começos do século
XI, se não antes, pelo menos quanto à sua parte nuclear, e que, uma vez concluído,
ficou dominando toda a vasta plataforma cimeira do alcantilado morro, defendida, a seu
turno, por uma alongada barbacã, que, em adaptação topográfica, tomou forma
grosseiramente elíptica, abrindo-se na sua face setentrional uma porta de entrada,
flanqueada de torreões e com acesso por uma rude escadaria escavada na própria rocha. Um
tanto descentradamente dentro do espaço assim delimitado pela forte barbacã, ficou
erguida a cúbica torre de menagem, de uns dez metros de altura, com sua porta de entrada,
aberta a uns três metros acima do solo e voltada para um terreiro de escassa extensão
(algo menos de 500 metros quadrados), circuitado por uma defensiva linha de muralhas,
muito irregularmente hexagonal, que, partindo da face setentrional da torre, vinha fechar
na sua face meridional, abrindo-se, aí, próximo desta e com amparo de fortes torrões a
porta de acesso ao terreiro, dentro do qual se construíram, como era hábito, a moradia
do alcaide e instalações anexas.
Terminada
ao findar a Idade Media, a eficiência militar dos castelos medievais, este de Lanhoso
ficou, como tantos outros, à mercê da arruinadora acção do tempo, a que certamente se
associaram os pequenos vandalismos que é de crer suscitasse, aos pesquisadoras de
tesouros ocultos, a tradição de tratar-se duma edificação do tempo dos Mouros. Nada,
porém, que se assemelhasse à vandálica destruição promovida no século XVII por um
abastado comerciante portuense, André da Silva Machado, o qual, movido aliás pelo bem
intencionado propósito de construir um templo consagrado a Nossa Senhora do Pilar, com
escadaria de acesso guarnecida de capelas à maneira das do Bom Jesus, de Braga, entendeu
cousa acertada por mais fácil, e mesmo inocente, como lhe dizia a sua bruta ignorância,
aproveitar as já aparelhadas cantarias, obtidas por impiedosa demolição de grande parte
da barbacã e da muralha, resistindo porém aos camartelos demolidores, felizmente, a
torre de menagem, defendida deles pela solidez das suas grossíssimas paredes com mais de
um metro de espessura. Começado em 1680, e concluída no essencial alguns anos depois, a
obra da escadaria continuava em 1724, persistindo-se decerto também no vandalismo
iniciado meio século antes.
Assim, ao
iniciarem-se há um quarto de século as obras de parcial restauração do castelo,
empreendidas pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, quase só
restava, de tudo quanto o constituíra, a sua torre de menagem, com o cunhal de sudoeste
um tanto maltratado pela acção dum raio, referida nas Memórias paroquiais de 1758.
Quanto ao mais, apenas sobreviviam, da barbacã, alguns dispersos vestígios e um curto
lanço da face setentrional, junto da porta da entrada; e da muralha interior, as
ombreiras e arco da porta de acesso ao terreiro, os restos dos arruinados torreões
franqueadores dela, bem como os alicerces do prístino marulhamento, encobertos já por
densa vegetação bravia, e os quais na parte setentrional desenham um saliente
quadrangular, que se crê denuncia ter existido ali um cubelo.
Bem
conhecido é, na história desce castelo, o facto de ter-se refugiado aí, em 1121, a
viúva do Conde Henrique, D. Teresa, que desde a morte dele ficara governando a terra
portucalense. Atacada pela rainha de Leão, sua meia irmã D. Urraca por motivos
não suficientemente esclarecidos, mas decerto os de ordem política, relacionados com as
acções de D. Teresa, que se não acomodava facilmente à subalterna situação de
vassalagem veio D. Teresa recuando desde a margem do rio Minho com suas tropas, já
vencidas e progressivamente dispersas, até encerrar-se no castelo de Lanhoso, onde logo
foi cercada, em manifeste situação de inferioridade. Porém D. Urraca, sob o império de
prementes dificuldades políticas próprias, entretanto sobrevindas, só lhe impôs um
tratado de paz com expressas clausulas de mútuo auxilio.
Certa
tradição refere que em 1128, como consequência da derrota sofrida na batalha de S.
Mamede, D. Teresa voltou ao castelo de Lanhoso, mas desta vez como prisioneira de seu
filho, o vencedor infante Afonso Henriques, que para ali a enviara, duramente agrilhoada.
Nada menos exacto do que o negrume dessa lenda, há muito desfeita nas páginas dos
historiadores, porquanto tudo quanto se lê nas mais vetustas memórias é que, após a
batalha, e já em fuga, ela e o seu consorte, o conde galego Fernando Peres, foram
aprisionados, e sem demora expulsos de Portugal, de que o jovem Afonso Henriques se tornou
desde então incontestado senhor. A condessa sobreviveu ao desastre, falecendo na Galiza
nos fins de 1130. Seus ossos vieram mais tarde para Braga, em cuja catedral repousam, num
túmulo parceiro do de seu primeiro marido, o glorioso conde Henrique.
Volvido
algo mais de meio século sobre esses sucessos, veio o castelo de Lanhoso a ser teatro dum
crime passional, tragédia real e verdadeira, esta, com relato em velho nobiliário
medieval. Ausente um tanto demoradamente, o alcaide Rodrigo Gonçalves de Pereira,
quarto-avô do Condestável Nun'Álvares Pereira, teve denúncia de que sua mulher lhe era
infiel. Regressando arrebatadamente, lançou fogo às instalações habitacionais do
castelo, decidido a punir a acusada, bem como todos quantos incriminava de sigilosos
cúmplices. Tudo indica que o fez de improviso, e certamente de noite, porquanto as
memórias que recordam o radicalismo do feito acentuam que ao incêndio não escapou nada
que vida tivesse, nem sequer os animais domésticos.
Dando agora outro salto de cerca dum
meio século; eis-nos em 1264. O monarca português Sancho II, glorioso guerreiro que
levara as fronteiras de Portugal quase até aos definitivos limites, acabava de ser
deposto pelo pontífice Alexandre IV, sob a acusação que lhe era movida de consentir
graves desordens internas, até com violação de direitos eclesiásticos; e o Conde de
Bolonha, futuro Afonso III, regressara de Franga, onde vivera durante muitos anos, para
substituir, como regente de nomeação pontifícia, seu irmão, o rei Sancho II. Em
Portugal os partidos de um e de outro persistiam, mas a maior parte dos poderosos aderia
ao sol nascente, abandonando aquele que mergulhava no ocaso. Ora o que se passou com o
castelo de Lanhoso, em sucesso aliás quase esquecido, testemunha, como poucos, a
atmosfera política dessa sombria época da vida medieval portuguesa, Com efeito, no tempo
de Sancho II, era alcaide deste castelo D. Godinho Fafez, bisneto de Fafez Luz, senhor da
terra de Lanhoso no tempo de Afonso Henriques. Godinho Fafez, porém, substabelecera a
alcaidaria num certo Mem Cravo, e este, sem seu consentimento, entregou o castelo ao
regente. Com esta
efeméride se encerrou a serie dos mais notáveis sucessos ocorridos no castelo de
Lanhoso, cujas enegrecidas pedras continuam perenemente recordando ter ele sido outrora um
dos defensores da independência portuguesa, então ainda meramente balbuciante, mas já
bem viva no seu balbuciar.
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