CASTELO DE LAMEGO
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Este castelo é muito antigo já existente mesmo antes da nacionalidade.
Lamego, a
bem conhecida cidade de Riba-Douro, há muito desbordante do medieval muralhamento,
ostenta no alto, meio afogado entre construções modernas, o seu vetusto castelo, erguido
outrora para defessa dos seus moradores de então.
O castelo
é atribuído à segunda metade do século XII; a muralha citadina, de silharia bem mais
regular e cuidada, pode crer-se posterior, já do século XIII. Porém, quanto aquele,
deve observar-se que, sem duvida, representa reedificação de fortificações mais
antigas, cuja existência vários sucessos históricos claramente sugerem.
Na sua
configuração actual, o castelo é delimitado por uma linha de muralhas, na qual se abrem
duas portas, uma pelo lado norte, flanqueada por dois cubelos, e outra na parte oposta,
como geralmente se vê na generalidade destas edificações; no terreiro, assim
circuitado, ergue-se um tanto descentradamente, a torre de menagem, alta, de 3 pisos,
iluminada por frestas, algumas das quais transformadas em janelas no século XVI, por
iniciativa de D. Francisco Coutinho, 4º e último Conde de Marialva, quando o castelo,
tendo perdido já o valor militar, conservava o valor de moradia, tornada assim mais
agradavelmente habitável, e até de desejar pelo aprazível panorama dela desfrutado,
sobretudo então quando o aglomerado de habitações era ainda muito menos obstrutivo. Já
fora do castelo, mas longe dele, situa-se a entrada para uma velha cisterna de data
evidentemente próxima, como se vê pelas características da construção; mas decerto
não simultânea, visto serem diferentes das siglas do castelo as da turma de pedreiros
que a construiu. 
As origens
de Lamego e a antiga história da sua primitiva defesa casteleira esfumam-se num remoto
passado. Romanos, Suevos, Visigodos e Árabes por ali dominaram durante os primeiros oito
séculos da era cristã, travando, uns após outros, sucessivas lutas pela posse do
território, lutas no decurso das quais, como seguramente pode presumir-se, não deve ter
ficado imune a fortificação local, decerto por várias vezes destruída ou seriamente
danificada e reconstruída. É todavia quanto aos primeiros séculos da Reconquista
Cristã que os sucessos militares são melhor conhecidos. Trazida até à linha Viseu
Salamanca a ofensiva cristã de Afonso I em meados do século VIII, consolidou-a nos fins
do terceiro quartel do século seguinte o repovoamento promovido por Afonso III e
prosseguido em meados do século X por Ramiro II. Nos fins desse século quando em 997 o
celebre Almansor regressava vitorioso da destruição de Compostela e atravessou novamente
território portucalense, passando por Lamego, já toda a região entre o Mondego e o
Douro estava sob domínio muçulmano, situação que, porém, entrou a modificar-se nos
fins do primeiro quartel do século XI com as expedições de Afonso V, culminadas uns
trinta anos depois pela definitiva reconquista cristã realizada por Fernando Magno, que
entre outras terras reconquistou Lamego em 1058. Do que aí então se fez militarmente os
artifícios e instrumentos de assalto que se tornaram necessários para a escalada e
ataque da posição pode bem conjecturar-se que, na onda de perdas e recuperações
já anteriormente sofridas, o lamecense castelo da alta Idade Media fora já objecto duma
reconstrução que tornava difícil a sua expugnação.
Uma
romântica lenda, que se situa nos tempos de domínio muçulmano em Lamego, tocada de
melancólicos e mesmo, trágicos tons, à qual ainda em 1874 Pinho Leal dava acolhimento
no seu Portugal Antigo e Moderno, foi tecida pela imaginação popular, enleando de
pormenores lendários um, sucesso porventura verídico, mas muito mais simples. Conta essa
lenda que uma jovem muçulmana, de nome Ardínia, filha do governador local, enamorando-se
dum cavaleiro cristão, Tedom Ramires, combinou com ele consorciarem-se e, com esse fim,
fugir para terras de domínio cristão; alcançada, porém, pelo pai quando já na ermida
de S. Pedro, junto ao Távora, se convertera à fé cristã, foi por ele afogada nesse
rio. O enamorado cavaleiro, ao saber isto, fez voto de nunca se casar, e solteiro veio a
ser mais tarde morto num recontro com muçulmanos, junto ao Rio Tedo, que dele, acrescenta
a lenda, tomou o nome. Esta tradição, lendária evidentemente, bem pode todavia ter
algum alicerce de verdade, sendo verosímeis os amores que lhe servem de fundo, pois de
nenhum modo eram insólitos então os enlaces matrimoniais entre seres de uma e outra
religião; uma cristã chegou mesmo a sentar-se no trono dos califas. Porém a data
atribuída aos sucessos, 1062 é que é inaceitável, a menos que, rolando de século em
século, a tradição tenha considerado da era cristã aquela data, que seria da era
hispânica, correspondendo portanto ao ano cristão de 1024.
Sob
definitivo domínio cristão, Lamego e o seu castelo acompanharam as principais
vicissitudes da história nacional desde a independência da Nação. Em tempo do nosso
primeiro rei, foram objecto dos cuidados de seus cunhado e sobrinho, os Mendes, senhores
de Bragança, bem como do celebre Egas Moniz; relativamente a 1143, haveria de aceitar-se
que o próprio Afonso Henriques ali esteve, se pudesse prestar-se crédito às actas das
chamadas Cortes de Lamego documento só divulgado em tempo da dominação filipina e tão
eivado de erros e anomalias que bem pode crer-se forjado; sê-lo-ia então por motivos de
ordem patriótica, como pode deduzir-se de que uma das decisões aí supostamente tomadas
negava a hereditariedade do trono pela via
feminina, em que tinham sido assentes os direitos hereditários dos Filipes, No tempo de
D. Sancho II, até 1245, foi senhor da terra e alcaide do castelo aquele turbulento
rico-homem Abril Peres, ao qual, na descrição doutros castelos, foi já feita
referência. E quando o irmão e sucessor desse monarca ordenou a realização das
Inquirições de 1258, nelas se incluíram referências a deveres militares dos moradores
do castelo; talvez por essa altura se construísse a muralha citadina.
Nos
séculos XIV e XV a alacaidaria do castelo estava encabeçada nos Coutinhos, Ao abrir-se
em 1383 a crise dinástica, o seu alcaide, Gonçalo Vasques Coutinho, aquele que o era
também do castelo de Trancoso, tomou, como já se disse a propósito deste, o partido do
Mestre de Avis, e combateu por Portugal. Depois, mais ou menos teoricamente os direitos da
alcaidaria seguiram na linha dos seus descendentes e já, quanto ao século XVI, a um
deles se fez atrás outras referencias.
O castelo,
perdido então o valor militar, ficou todavia como célula histórica da cidade. padrão
glorioso do seu Passado, e, assim, legitimo orgulho dos Lamecenses.
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