CASTELO DO ALMOUROL
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Instalado num rochedo no meio do rio Tejo, uma ilha de pedras agrestes e a desafiar a
eternidade está o castelo de Almourol envolto num cenário de magia proporcionado
Numa
ilhota do Tejo, pouco a jusante da sua confluência com o Zézere, a meia distância entre
as vilas de Barquinha e Canstância, afloramento granítico a que a diminuta base dá
certo aspecto de altitude, apesar dos seus simples 40 metros de altura ergue-se um dos
mais típicos castelos portugueses, o de Almourol.
Ajustada
às condições topográficas, a planta da muralha envolvente é sinuosa, protegendo-Ihe
os ângulos numerosos bastiões; a porta de entrada, nela aquote aberta, dá acesso a um
vestíbulo do qual se passa ao terreiro um pouco superior, ande assenta a dominadora torre
de menagem, cujo interior mal iluminam algumas simples frestas.
Salvo
pouco importantes modificações praticadas modernamente, o castelo apresenta a feição
medieval do tempo em que lhe, promoveu a construção o célebre Gualdim Pais, Mestre da
Ordem do Templo.
Uma
lápide datada da era de 1209 (ano 1171), engasteda sobre a porta principal do castelo,
menciona, além da naturalidade bracarense de Gualdim Pais e da sua acção militar contra
os muçulmanos no Egipto e na Síria, o seu advento a chefia dos Templários portugueses e
subsequente construção dos castelos de Pombal, Tomar, Zezere, Cardiga e Almourol.
(...factus domus Templi Portugalis procurator, hoc construxit castrum Palumbare. Tomar,
Ozezar, Cardig, et hoc ad Almourol), assim mostrando que em 1171 o castelo de Almourol se
achava, como os demais indicados, já construído. Essa seria, portanto, a data, na qual,
ou anteriormente à qual a construção teve lugar. Uma pequena inscrição, assente sobre
a porta interior, esclarece porém ter sido em 1171 (era 1209, também mencionada nesta)
que Guadim Pais, com os seus confrades, edificou o castelo de Almourol.
Sobre a
porta da sacristia da igreja do convento de Tomar, existe uma outra lápide, igualmente
datada da era de 1209, assaz semelhante a esta, salvo na enumeração dos castelos, na
qual figuram também os de Idanha e Monsanto, o oitocentista erudito Viterbo, aceitando
uma errónea tradição segundo a qual a lápide de Tomar teria sido transferida para o
castelo de Almourol no tempo do Infante D. Henrique, supôs proveniente de Tomar a
inscrição de Almourol; e esta inexactidão tem sido repetida, apesar de que há quase
meio século já o cuidadoso investigador Garcês Teixeira mostrou serem duas as
inscrições, e com base no facto de mencionar-se na de Tomar a construção dos castelos
de Idanha e de Monsanto sendo estes posteriores a 1171, afirmou dever considerar-se
princeps a inscrição de Almourol e cópia dela a de Tomar.
Muito
anteriormente à construção do templário castelo de Almourol, já o local estivera
fortificado. Com efeito, vê-se no sopé de certos lugares das muralhas algum aparelho
construtivo que tem sido considerado de tipo romano, e esta remota ocupação militar do
local pelos Romanos é confirmada pelo achado de moedas romanas e outros objectos de igual
época. Admite-se, por isso, que, passando ao poder dos Bárbaros, ai depois houvesse
fortificação árabe, expugnada pelas forças cristãs do nosso primeiro rei, e que
finalmente, sobre as ruínas dela, porventura existentes, se fizesse por determinação de
Gualdim Pais uma reedificação em moldes arquitectónicos do seu tempo e com a grandeza
que caracteriza o perdurante monumento.
Integrado
nos domínios da Ordem do Templo, o castelo constituiu sede duma comenda, situação que
se manteve depois que em substituição daquela Ordem, violentamente extinta pelo papa
Clemente V, o nosso rei D. Dinis lhe constituiu sucessora nos bens e direitos, relativos a
Portugal, a Ordem de Cristo.
Com o
andar do tempo, perdida a eficiência militar o castelo de Almourol deixou de ter
guarnição, e ficou abandonado, no isolamento da penedia em que se ergue. Mas foi justamente esse isolamento,
que, século após século, o deixou maculado epenas pela acção do tempo, aliás Fruste;
mas, ao contrário de tantos outros, livre da arminadora acção dos homens.
Parco
em matéria de memórias propriamente históricas, o castelo de Almourol é porém rico
quanto a uma porção de lendas que a imaginação popular, ao criá-las, fez, como de
costume remontar ao tempo dos moiros.
Assim é
possível, porém, que nem todas sejam de origem popular, pois bem podem ter-se na conta de mera criação
literária os sucessos que o quinhentista
Francisco de Morais incluiu no seu Palmeirim de Inglaterra, relativamente ao castelo de
Almourol. Nesse tardio romance de cavalaria, o herói, viajando dum porto britânico para
Constantinopla, é desviado deste destino por uma grande tempestade que forçou o navio a
arribar na costa portuguesa, fundeando no rio Douro. Desembocado no Porto, Palmeirim toma
conhecimento das perigosas aventuras de alguns cavaleiros andantes que se tinham atrevido
a travar combate com o gigante Almourol, que no seu castelo à beira do Tejo custodiava a
bela princesa Misaguarda e suas damas; por isso, sempre em busca de aventuras, logo se
determina a correr essas teis. Jornadeando para o sul, chega enfim à orla do Tejo e logo
avista o castelo de Almourol, «tão guerreiro e bem posto, que fazia presumir a quem o
via que quem primeiro o edificara, para tenção de grandes coisas o fizera». Já mais
perto, vê dois cavaleiros combatendo numa praça junto do castelo, mas que já estavam no
fim da luta. Reconhece no vencedor o cavaleiro triste, com o qual já tivera encontros;
aqui,
este, em sinal de vitória, juntara o seu escudo ao de outros que já a tinham obtido de
seus contrários. Ora no escudo do cavaleiro triste estava pintado o retrato de sua dama,
a princesa Misaguarda, tão bela, que Palmeirim «ficou algum espaço suspenso»; mas,
voltando a si, um fervoroso galanteio brotou de seus lábios, pois que, pondo o olhar na
efígie, assim falou: «Senhora, agora vejo o que não cuidava, e já me não espanto
Fazer tamanhos extremos este vosso cavaleiro, pois por tamanho extremo combate; vencer
todos não me parece muito, pois a razão em seu favor está tão clara, mas comigo quero
ver que fará, pois a tenho maior a minha: Ouvindo tais palavras, tendo-as como ofensa
digna de castigo, o cavaleiro triste sustenta o repto, dizendo para consigo: Senhora, quem
por esse parecer combate, que fraqueza tão grande ou que esforço tão fraco pode ter,
que toda elas cousas grandes não acabe ?». Então um feroz combate se trava. Voam em
estilhas os escudos, amolgam-se as espadas, porém só o sangue derramado, as muitas
feridas, e por fim a noite, põem termo à luta, mas sem haver vencedor, Mais ferido, o
cavaleiro triste é recolhido e tratado no castelo, enquanto Palmeirim vai tratar-se numa
aldeia próxima. Porém, nem um, nem outro, logra o amor da princesa, a qual aconselha o
cavaleiro triste a retirar-se e a desistir de novos combates durante um ano, já que não
fora vencedor neste; e quanto aa Palmeirim, também ele se afastou do castelo, achando
preferível retornar aos seus propósitos de Constantinopla. Depois disso, o feroz
Almourol atacado e vencido por outro gigante, Dramusiando, sob protecção do qual ficam
então a princesa e sua corte.
O muito
citado polígrafo Pinho Leal, tendo referido esta lenda e aludido a outras, narra também,
e pormenorizadamente, uma tradição lendária que diz corrente entre o povo da região
ainda no tempo em que a registou, isto é, nos fins do terceiro quartel do século
passado; alude-se nessa lenda a sucessos ocorridos nos primeiros tempos da Reconquista
Cristã, séculos XI ou X, sendo protagonistas nela um cavaleiro cristão.
D. Ramiro,
e um jovem mouro, como resumidamente vamos narrar: D. Ramiro regressava orgulhoso de
combates contra os
muçulmanos e encontrou duas mouras, mãe e filha, trazendo esta uma bilha com água, que
deixou cair, assustada, quando lhe pedia de beber o rude cavaleiro, o qual, enfurecido,
logo à ela e a mãe tirou a vida; apareceu então um pequeno mouro, filho e irmão das
assassinadas, que D. Ramiro levou prisioneiro para o castelo, onde se achavam sua mulher e
filha, que logo o prisioneiro projectou matar, como represália; Fê-lo, porém propinando
lentamente um subtil veneno aquela, deixando-se, todavia enlear depois por um mutuo amor
com a jovem, que o pai projectava casar com outro cavaleiro, sabido o que, mouro e cristã
deixaram o castelo e desapareceram. E este conjunto de inconsciências é rematado com
dizer-se que nas noites de S. João aparece no alto da torre de menagem o par de amorosos,
abraçados, e rojando-se-lhes aos pés, implorando clemência, o brutal D. Ramiro.
Na
realidade, quem em qualquer noite luarenta contempla o solitário castelo, pode bem
compreender que no decorrer dos séculos, desde o seu abandono, o povoassem lendas,
absurdas sem duvida, mas tocadas dum suave romantismo.
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